A peça Jung Laing – Eu prisioneiro de mim, da Cia Cara de Palco, está circulando pelo Goiás, com uma trupe de talentosos artistas sexagenários
Entre fevereiro e março de 2025, Goiás está sendo o palco do espetáculo Jung Laing – Eu prisioneiro de mim, da Cia Cara de Palco, que está circulando por 3 cidades do interior do estado, levando temas das profundidades da mente humana. Em Jung Laing, o protagonista é um Espectro do Transtorno de Personalidade Múltipla, cuja origem está profundamente ligada à violência doméstica.
Desde sua concepção, ele já carregava um destino sombrio, pois foi gerado a partir de um aborto mal sucedido. Diante dessa realidade, sua mãe, incapaz de lidar com a perda, passou a criá-lo dentro de sua própria mente. Nesse processo, ela o alimentava constantemente com ódio e ressentimento, moldando sua existência de maneira perturbadora. Além disso, em alguns momentos, ela chegava a “incorporá-lo”, permitindo que ele “realizasse” seus desejos mais obscuros, incluindo o ato de matar. O espetáculo passou por Luziânia e Formosa, e agora segue para Alto Paraíso, com três apresentações, nos dias 28, 29 e 30 de março. Ao fim de cada espetáculo, será feita uma mediação pela psicanalista Márcia Santos.
Jung Laing – Eu prisioneiro de mim
O texto, de Marcio Rodrigues, surgiu a partir de um episódio ocorrido na casa de amigos, onde a mãe, que tem um filho com o Transtorno do Espectro Autista – TEA e um quadro evolutivo para a esquizofrenia, ao deitar-se, tem o cuidado de recolher todos os talheres, facas, garfos, tudo que pudesse se transformar em uma arma letal. A partir desse real episódio, surgiu um lugar fictício chamado Povoado, onde a tradição masculina se impõe de forma rigorosa. Nesse cenário, a mulher precisa da permissão do marido para qualquer coisa, inclusive para engravidar.
A montagem oferece várias discussões, como: O machismo presunçoso e mau-caráter, que vem a séculos assassinando mulheres. Até mesmo hoje, com múltiplas entidades sociais de combate ao feminicídio e com as recentes leis aprovadas, como a Lei Maria da Penha, ainda não se consegue inibir a selvageria conduzida pelo machismo. Até onde a saúde mental da mulher suporta ser maltratada? E se ela não recebe apoio nem do núcleo familiar, o que fazer? E os filhos? As perguntas são muitas e as respostas são poucas. É preciso que a sociedade intervenha ainda mais, é necessário que o Estado intervenha e faça valer a lei para que não tenhamos tantos filhos órfãos de mães.
O espetáculo é um flash backer, tendo como cenário um quarto infantil, e ela narra a história de Jung Laing, na infância e adolescência. A personagem ouve vozes e são essas vozes que a levam a relativa consciência de que ela e o filho são as mesmas pessoas.
Mediação com Márcia Santos
Por que a violência contra as mulheres continua tão presente entre nós? A violência contra a mulher afeta sua saúde e o desenvolvimento de todos os familiares, especialmente as crianças. Refletir de forma interdisciplinar e alternando novos saberes é um passo fundamental, portanto importante pensarmos juntos estes vínculos dentro de suas múltiplas determinações e dificuldades. O Grupo Cara de Palco, em seu espetáculo: Jung Laing – Eu Prisioneiro de Mim, convida a todos, após cada espetáculo, para uma roda de conversa juntamente a psicanalista convidada: Márcia Santos, Nenhum fato isolado explica a violência em sua força bruta, façamos juntos este percurso em busca do fortalecimento de práticas para a promoção da Cultura de Paz em nossas relações do dia a dia.
Trupe de Sexagenários
Toda a equipe se caracteriza pelas vivências múltiplas e pelas muitas estradas percorridas ao longo dos anos. Para começar, Miltinho Alves, o caçula da Cia, atua como Montador de Luz e Iluminador e, com orgulho, já soma 61 anos de vida. Da mesma forma, Kiko Nunes, Intérprete em Libras, carrega consigo 65 anos de experiências.
Além disso, Sérgio Vianna, que se dedica à iluminação e maquiagem, celebra suas 73 voltas ao sol. Já o Diretor, Marcio Rodrigues, traz toda a bagagem dos seus 65 anos, enquanto Revacy Moreira, atriz da companhia, segue firme aos 66. Por fim, Rute Guimarães, Consultora Cênica, caminha com vigor e sabedoria ao longo de seus 78 anos.


Créditos das Fotos: Elise Milani